28 maio 2013

Interlúdio: eis o valor da vida humana





Na subterrânea jornada diária que me imponho diariamente para concretizar tantos sonhos, me vi ao lado de uma pequena grávida no metrô. Ela estava em pé, em frente a porta, naquele ritmo paulista de quem prepara-se para sair do vagão.
Uma mulher tão pequena, carregando um ser dentro de si.
As duas vidas se foram e eu fiquei ali, pensando, eu estive ali antes.Figurativamente, todos estivemos. E tão sem consciência de que estive, assim como, não tinha consciência de que estaria aqui. A inconsciência dos que estão  é tão inocente quanto a nossa  incerteza sobre o que haverá depois que não estivermos mais aqui - se houver algo.
Uma mulher tão pequena, carregando um sonho inconsciente dentro de si, enquanto em uma cultura diferente - extremamente controladora - um sonho é desperdiçado. E se para você, esse papo de sonhos não tem valor, pergunte a si mesmo o que te mantém respirando nesse mundo de ar tão poluído.  
Na China, um recém-nascido foi encontrado no encanamento do vaso sanitário de um prédio residencial. Motivos? Culturais ou pessoais, que não cabem a mim julgar. Penso que não cabe a nenhum ser humano tal julgamento. A humanidade não vêm provando ser tão digna de julgamentos alheios.
Contudo, esta diminuta vida, que ainda estava ligada à placenta quando foi resgatada por bombeiros, vivenciou, ainda que totalmente alheio a tudo isto, a característica que nos torna humanos: a união, a solidariedade. O recém-nascido, que está em estado estável, teve como prólogo de sua vida a própria salvação. 

Em uma entrevista Edgar Morin afirma quequando se faz presente, o perigo dá uma possibilidade de consciência de ação. E eu tento adequar esse pensamento a uma maneira otimista de enxergar as desumanidades humanas.
Diante da perca iminente de uma vida pequena e tão alheia a todo esse caos regrado, a união das ações humanas pode (e deve) alterar o rumo dos acontecimentos. Se lhe aprouver, assista aqui a tentativa de salvar uma vida descartada, por alguém que não compreende tanta grandeza singela. E são nessa tentativas que nos mantemos humanos.
O simples descarte de uma vida que mal chegou a este mundo demonstra o quão insensíveis nos tornamos. O quão estamos vivendo sob tantas regras, tantas leis, que perdemos a nossa capacidade de raciocinar entre o bem e o mal. 
Minha memória ainda resguarda, mesmo que em turvas lembranças, um caso que deve ter ocorrido por volta de 2009-2010, nos EUA. Um criança, de pouco menos de um ano de idade, foi abandonada pelo pai no meio da rua, em plena madrugada. No vídeo era possível ouvir o pai sussurar “bye baby, be careful”. 
Por conta da minha memória estranha tentei encontrar alguma manchete ou vídeo sobre essa noticia que ouvi tantos anos atrás, mas não encontrei nada. O que nessa sociedade googlelizada pode significar que nunca ocorreu, mas, afinal, somos raciocínio ou internet? E o que seria do nosso raciocínio sem internet?
Em momentos como esse, enfrento dois monstros. O pessimismo que leva a perca da capacidade de acreditar, contra o Otimismo de que poderemos nos salvar até que aprendamos um dia a viver em paz e conscientes.
Ao fim de tudo isto, ao fim dessa existência fugaz e pulsante, me sento em qualquer canto apenas para observar as pessoas e pensar: qual o valor da vida humana? Qual o calor de uma vida humana? Será que durante a vida não estamos todos esquecendo da vida?
S.