22 agosto 2013

O jornalismo e eu

A idealização 

Sou uma eterna interrogação, pois tenho dúvidas e curiosidades, sou uma insaciável sede do conhecimento da vida (de todas as formas de vida). Se pudesse ter um desejo concedido optaria pela escolha de sobreviver desvendando os pequenos mistérios alheios de gente que está longe da nossa realidade, mas que tem uma história humanamente reveladora para contar. Um relato que faça o leitor pensar sobre aquelas linhas - entender pelas entrelinhas - que faça o espectador refletir a vida que vê diante de si.

No jornalismo consegui enxergar uma forma bela de traduzir as realidades, daquelas tão bem intrincadas que o receptor duvida que sejam reais. Encontrei uma forma de fazer o mundo entender outros mundos. E é isso o que sou, exatamente o que acredito que o jornalismo consiga fazer: transformar cada pessoa e unir cada mundo através da troca de informações e, mais, de histórias. Das pequenas histórias e tragédias que mudam pessoas à grandes reportagens formadoras da consciência política e social de cada um.

Acredito que, no jornalismo parte das minhas dúvidas como ser humano será saciada e que outra, jovial e persistente, cadeia de interrogações inevitavelmente irá nascer. E isso será bom. Afinal, a origem das histórias mais relevantes e reveladoras é a dúvida e a resposta vem pela persistência.
O jornalismo é a estrada por onde quero trilhar o mundo e ver através da realidade as pessoas alcançarem um estado de consciência sobre o tempo em que vivemos. E esta é a minha estrada tão pouco percorrida, por enquanto.

S. Oliv

09 agosto 2013

Uma guerra entre conceitos e atitudes


Foto: Kid at window | Scott Wallick 

Por enquanto, os pais ainda insistem em criar seus filhos com os valores que formam o caráter de um bom ser humano*. Ainda ensinam a bondade, a solidariedade e a não-violência.
Contudo, muitas vezes os ensinamentos vêm apenas em palavras e os atos que servem de exemplo são o contrário do que, por tradição, ensinam.
Como se meros conceitos proferidos em algum momento valessem mais do que as atitudes que têm o tempo todo.
Os atos cotidianos que não têm intenção de ensinar qualquer coisa são os que acabam formando aquela pessoa. É, também, daquilo que o caráter será feito.
Existem pais que não tem a pretensão de ensinar coisa alguma, ou, ainda os que ensinam de outras formas.
E ainda, do outro lado estão aquele que, sem as figuras paternas, aprende a vida direto da vida, a realidade direto da realidade. Que primeiramente aprende atos e não conceitos.
E desde cedo já vê que aqui não é o top 3 na lista de mundos para se viver.
Não que seja apenas atrocidade e hipocrisia, mas você sabe...

Então, fomos crianças criadas em mundo de adultos que, em sociedade, dissimulam o tempo todo.
E essa fogueira-dúvida, irá crepitar a noite inteira: vale a pena ensinar o caráter? e é hipocrisia ensinar?

Talvez depois de saber distinguir o que é bom ou ruim, dentro do contexto em que está, o indivíduo perceba que, neste mundo, esses conceitos se diluem quando o verbo é sobreviver.
E aí, irá pender para o lado que o mantenha vivo.
Talvez, se os adultos não ensinassem como ser bom fossemos ainda piores quando adultos.
E talvez, se seus exemplos fossem baseados em suas palavras não seríamos tão assim.

Porém, o mundo que vejo não verá o seu caráter.
O mundo vê a esperteza, não vê a intenção.
Vê o fim, não os meios.
E é somente isso, apenas vê.
Então, não esperemos por reconhecimento de qualquer coisa.
Apesar de tudo creio que vale a pena deixar nas nossas sementes a clara percepção dos conceitos.
Que preserva a esperança do que podemos ser quando deixarmos de lado a casca que envolve as atitudes que temos e muitas vezes não são nossas.
Mas tudo são apenas suposições, boas para o universo de um livro.
E nós somos apenas poeira no vento tentando se manter no ar...por mais tempo.
Deixo a torneira de ideias jogadas aberta, para que quando a sua opinião estiver formada, você tenha a escolha de fechá-la ou deixar correr por aí.

*Mas afinal, o que é um bom ser humano?

S. Oliv

29 julho 2013

A vitrine

O céu, que acompanhava os meus passos durante a minha jornada diária em busca de esperança para continuar insistindo, foi a única testemunha.
Andando apressada, como é de lei, parei subitamente surpreendida pela vitrine de uma loja de tecidos, que parecia estar ali desde sempre, embora eu nunca tenha notado. Como se assim que o ser humano ficou deslumbrou pela manipulação do fogo, a sua próxima meta fosse abrir uma loja de pedaços bem no que, milênios depois, seria o centro de uma grande cidade.
O que vi naquela vitrine mal iluminada, agarrou-me a mão e deixou ali o pó da nostalgia, figurativamente mas real. E fiquei paralisada diante daquele vidro.
Anos me foram sugados sem que eu sentisse. Acima de todos nós, o céu refletia o cinza dos prédios que me cercavam, feito prisioneira encurralada que me sentia há tempos. 
Não sei quanto tempo fiquei ali, rendida por aquele vidro ancestral. As pessoas que passavam atrás de mim, vez ou outra debruçavam um olhar em minha direção, saindo da hipnótica condição de andarilho-sem-ver. Mas o que elas viam exposto naquela vitrine não as atraía. Então, a caminhada das visões vendadas continuou, enquanto permaneci estática, inebriada por aquela visão angustiante através do vidro.
Uma senhora, que aparentava a idade do mundo, e a sapiência e leveza que devem ter nascido com tantos anos, saiu do casebre que tinha olhos de vidro virados para a rua. 
E dela, os olhos curiosos, muito vivos, pousaram em mim. 
Deve ter esperado qualquer reação minha, mas não houve. 
Apesar de perceber a realidade ao meu redor com uma clareza como nunca antes, eu estava totalmente alheia aos estímulos desse mundo.
Aquele rosto sem vida era a única coisa que existia e arrepiava o corpo que me prende os pés no chão dessa realidade. 
Aquela expressão de quem sonhara tantos sonhos pra depois, mas que agora apodreceram em si deixando pó e cinzas.
A nostalgia me acusava.
Aqueles olhos me encarando com remorso e medo perguntavam se eram os mesmos olhos da garotinha vivaz que outrora fui?
Apenas essa boneca quebrada morta-viva na vitrine que apenas o céu percebeu.
Tão fria quanto o vidro mal iluminado que refletiu quem sou.

10 de junho de 2013
S.

23 julho 2013

Sobre a contradição da escrita


Escrever a fantasia é dar vida,

Escrever a realidade é dar sentido.

Escrever a fantasia é dom,

Escrever a realidade é percepção.

Escrever a fantasia é carinho,

Escrever a realidade é capricho.

A mão que corre no papel ou no artefato do século XX manda nuvens para o céu.

E o céu encena nossas convicções para si, eternamente.

S.

Monólogo selado à vácuo


"Em terra tropical sempre é mais fácil desistir em dia de chuva

Porque a chuva inunda onde encontra espaço e traz as coisas escondidas à superfície, a chuva alaga o fundo do poço

Ah, como é frustrante viver nos dias chuvosos

É uma espera

É esperar que não chova em si"

Declamou, inconsolável, a criatura que tudo sabia sobre nada.

S.

16 julho 2013

A aguçada sorte de julho

Chegou em casa e já era outro dia desde que saiu pela última vez.
O vazio estava a lhe esperar, convidativo.
A solidão é ótima, libertadora.
O solo de Lease of Life tocando nos ouvidos.
Tirou os sapatos, havia pisado na sorte naquela noite (e como fedia!)
Deixou o vento bagunçar os cabelos.
Olhou para o céu, alguns pingos eram visíveis em meio a luz artificial e a poluição humana.
Levantou-se e finalmente abriu a porta.
Entrou e largou a sacola em cima da mesa.
Tirou a jaqueta cuidadosamente, para evitar que o fone de ouvido fosse ao chão justo na melhor parte da música.
Respirou fundo aquele silêncio.
Apagou a luz, ouviu a melodia envolvente daquele momento da música
Ainda no escuro lembrou que agora já era sexta-feira, sexta-feira 13.
"Oh, meu deus! Os fantasmas e monstros de sombras!", pensou apalpando a parede em busca do interruptor, que interromperia a escuridão.
Levou três eternos segundos para encontrar e trazer de volta a luz, e com ela a realidade.
A cozinha vazia, sorria.
Desistiu da sua próxima ação.
Apagou as luzes e voltou pela porta que adentrara.
Viu o sol nascer sentada no chão, batendo nas portas do céu.


S.
Do Caderno Vermelho

A Esperança, ou O pássaro que cantou porque o dia nasceu outra vez

O dia terminou porque ele sabe.
Eu não sei terminar.
O que é meu eu não termino.
É como se tivesse tamanha importância que é melhor deixar pra lá, "vai que dá errado" é de pensar.
Mas não, hoje não lhe venha com essa de que a vida tende a melhorar, porque não, o dia não vai amanhecer melhor.
O dia vai nascer o mesmo.
Tudo igual abaixo do sol.
E por saber onde começa e aonde termina, o dia vai acabar.
Porque ele sabe mesmo como chegar ao fim.

S.