31 janeiro 2013

Sobre Florestan Fernandes





FLORESTAN FERNANDES & A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

 "A classe burguesa detém o conhecimento na sociedade, e a classe trabalhadora, que aprende através do ensino público, nem sempre tem acesso ao mesmo nível de conhecimento por falhas no ensino fornecido pelo governo. Se a educação não for igual a todos, a igualdade entre as pessoas será impossível, ainda mais em uma sociedade capitalista. A segregação de classes também é a segregação de conhecimentos. Descortinamos o ENSINO no Brasil para entender a disseminação do saber na sociedade e ficou evidente que boa parte da classe trabalhadora ainda não tem as bases intelectuais para lutar em num sistema capitalista. Vivemos em uma sociedade desigual, economicamente e intelectualmente. Estamos todos no arena, lutando com armas diferentes."
S. Olivx


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Liberdade liquída




❝As gotas de chuva são livres, o ser humano não.❞

Poéticas porém ingênuas aspas. Realmente não somos livres, mas compramos a sensação, efêmera e fugaz, de liberdade algumas vezes.
A água segue seu fluxo, há tanto tempo quanto a Terra existe. E nós.. tentamos mudar e evoluir num sentido mais metafisico.

Mas no final seremos os mesmos, apenas nossa alma estará um pouco mais degradada, gasta e suja. Como um telhado de protege o interior da casa da chuva e do sol.

A água, quando sobe, deve achar que é livre. Mas quando se dá conta de que vai descer, percebe que a liberdade é apenas isso.
A subida e a queda, que te devolve ao mesmo campo de partida.

Apesar de tudo, a chuva me dá alguma esperança, esperança de mudança, de transformação e as gotas d’água desenham poças que de maneira bizarra alegra um pouco o meu olhar.
Sem pensar em nada, o meu espirito fica renovado com a chuva.
Entendendo o mundo com os cinco sentidos, mais nada.
Sem razão.

S. Olivx

30 janeiro 2013

Fahrenheit 451 - A Fênix nos escombros





" Em 1933, quando os nazistas queimaram em praça pública livros de escritores e intelectuais como Marx, Kafka, Thomas Mann, Albert Eistein e Freud, o criador da psicanálise fez o seguinte comentário: 'Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros'. "



Bücherverbrennung: Queima de livros  no início da década de 30, na Alemanha.

Esse episódio ocorrido há tão pouco tempo atrás na história mundial, inspirou Bradbury a escrever The Fire Man, posteriormente intitulado Fahrenheit 451.
O livro é dividido em três partes, nomeadas com títulos instigantes e poéticos. Na primeira parte somos 
apresentados à um mundo bastante semelhante ao que pode tornar-se um futuro próximo. Um mundo de valores invertidos e sociedade alienada, em que você pode ser preso pelo simples fato de caminhar pela rua, por ser um pedestre e não um motorista. 
Vemos o mundo através da vida de Montag, um queimador de livros, um bombeiro. Os livros são proibidos pelo regime totalitário, e é considerado crime manter livros em casa. Bombeiros já não combatem o fogo.
Ao invés de água, querosene.
Ao invés de cessar o fogo, incendiar!
As casas são à prova de combustão, logo ao incendiar a casa apenas os livros, antes ocultos, serão queimados. 
Uma noite, ao retornar para casa, Montag conhece Clarisse McClellan, uma garota capaz de incitar todos os porquês que  impulsionarão Montag a pensar por si mesmo ao questionar a sua profissão, a própria felicidade e o porque da destruição de livros. Um dos questionamentos propostos por Clarisse à Montag:

" __ É verdade que antigamente os bombeiros apagavam incêndios em lugar de começá-los?" 

As frases de Clarisse McClellan são a sabedoria do passado e intuição que Montag precisa para questionar o mundo, e fizeram-me recordar dos questionamentos de Winston Smith, em 1984, de George Orwell:
"A vida teria sido sempre assim? A comida teria tido sempre aquele gosto?  [...]
  Por que razão o indivíduo acharia aquilo intolerável se não tivesse algum tipo de
memória ancestral de que um dia as coisas haviam sido diferentes?"

A alienação da sociedade é claramente percebida nas ações da esposa de Montag. Mildred é alienada e depressiva, mas não se dá conta disso, nem mesmo ao quase suicidar-se por excesso de remédios para dormir. Esta é uma sociedade onde se fala com as paredes que simulam uma resposta e este é o limite do dialogo, uma sociedade de olhos e ouvidos fechados. A felicidade tornou-se uma palavra vazia e sem significado para pessoas que nem ao menos sabem que tem sentimentos, sintoma típico de um regime tão opressivo e totalitário. 

Em um dia rotineiro de trabalho, Montag sente-se tentado e rouba um livro que deveria estar queimando, junto com a leitora que o escondeu na casa que também é invadida pelas chamas.  Em meio a guerra iminente, Montag torna-se um criminoso e fugitivo.
" Um livro pousou, quase obediente, como uma pomba branca, em suas mãos, as asas trêmulas. "
 O fogo destrói sem fazer distinção entre bom e ruim. Livros são queimados para que a ideologia - o conhecimento - se perca, entretanto quando alguém lê também se torna parte da ideia, o conhecimento torna-se parte do indivíduo e, não pode mais ser perdido.
Após a leitura carregamos aquela ideia conosco para sempre.
E o que o homem precisa não são de livros, mas da ideia que contém.
 Distopias são pessimistas por natureza, mas FAHRENHEIT 451 pode ser considerada uma distopia otimista, que no fogo e na destruição cria uma faísca de esperança, de renascimento e reconstrução de um novo mundo. Assim como a Fênix que por enésimas vezes consumiu-se, mas sempre renasceu das cinzas!

S. Olivx




07 janeiro 2013

Liberdades






É livre quem pode fazer o que quiser — dentro das suas limitações de espaço, tempo, energia e recursos. Só se é livre dentro de certos limites. Portanto, toda liberdade é condicional.
Só é totalmente livre quem pode exercer a sua vontade sem qualquer limitação moral ou material. Isto é: o tirano. Assim, a liberdade suprema só existe nas tiranias.
Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuída e o meu vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto a minha é um quintal de liberdade, liberdade mesmo que tadinha? Não é feio sugerir um reestudo da divisão.
Cuidado corre quem dá aos outros toda a liberdade. Geralmente é quem pode tirá-la.
Há os que passam o dia inteiro livres e chegam em casa se queixando disso. São os motoristas de táxi. Toda liberdade é relativa.
Toda liberdade é relativa. Verdade exemplarmente ilustrada por este diálogo entre o preso e o carcereiro.
— Nunca mais vou sair daqui.
— Calma. Não desanime.
— Não tem jeito. Estou aqui para sempre.
— Vou ver o que posso fazer por você -
— Não adianta. Estou condenado. Desta prisão eu não saio. Se esqueceram de mim.
— Eu não esquecerei. Voltarei para visitá-lo.
— Promete? — diz o carcereiro.
Quem é livre às vezes não sabe. Quem não é livre sempre sabe. Ou será o contrário? A gente vê tanta gente inexplicavelmente feliz.
Alguns são obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua obsessão.
Os loucos são livres e vivem presos por isso.
Poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos.
Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer “eu quero ser livre” é o mesmo que dizer “eu quero” e não dizer o quê. Existe a Liberdade De e a Liberdade Para. Não é uma questão apenas de preposições e semântica. E a questão do mundo. O liberalismo clássico iconizou a Liberdade Para. Você é livre se tem liberdade para dizer o que pensa e fazer o que quer, para ir e vir e exercer o seu individualismo até o fim, ou até o limite da liberdade do outro. A idéia de que a verdadeira liberdade é a Liberdade De é recente. Livre de verdade é quem é livre da fome, da miséria, da injustiça, da liberdade predatória dos outros. A idéia é recente porque antes era inconcebível.
Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre para o que se quisesse, para a vida e a procura individual do paraíso. Foi preciso uma virada no pensamento humano para concluir que Liberdade Para e Liberdade De não eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para concluir que eram antagônicas. A última virada é a decisão de que uma liberdade precisa morrer para que a outra viva. Não concorde com ela muito rapidamente.
Enfim, de todos os crimes que se cometem em nome da liberdade, o pior é a retórica.
Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.



Luís Fernando Verissímo

04 janeiro 2013

No hero in him sky




A garoa fina silenciosamente tocava o chão, a cidade era silêncio mas as coisas aconteciam.
A lata de café enferrujada no chão espera por um contato humano, por moedas de ouro e pedaços de historias. O homem, de barba ruiva e roupas rasgadas, a seu lado espera por um pouco de vida. Algum dia ele simplesmente escorreu pela parede e caiu ali sentado, nunca gritou por deus, não pediu por ajuda ou refeição. Apenas observa o mundo através das janelas castanhas, sem tentar entender a vida ao seu redor, olha cada rosto, segue cada passo com o olhar, mas não pensa sobre isso. Apenas vê, e acha que está naquela calçada imunda há anos, embora não tenha certeza, nem relógio, nem sol ou calendário.
 Dô é o seu nome, ou parte dele. É o que a memória lhe diz diariamente, porém nomes não lhe tem nenhuma utilidade, e não trazem memórias com eles, faz anos que ninguém chama o seu nome. Ele é invisível há tanto tempo quanto não consegue se lembrar, simplesmente não assimila a realidade ao seu passado.
O céu é uma rotina cinza na cidade apagada, as pessoas se arrastam rapidamente parecem sempre ter de chegar a um lugar, mas passam por ali todos os dias e ele não entende a pressa, não entende esse ciclo que não os leva a lugar algum e que as trazem pelo mesmo caminho imundo toda manhã. As pessoas passam por ele e às vezes através dele, sem notar, e é nesse momento que ele sente cada existência que o atravessa. Cada essência…
Um homem passou por ele aquela manhã, um rosto desconhecido que calçava sapatos de camurça e arrastava uma mala de rodinhas pela calçada esburacada. A mala ocupou o mesmo espaço que a lata, que por sua vez virou-se de lado e rolou pela calçada espalhando as moedas, e os botões que estavam ali dentro. O som ecoou por toda a rua, e o silencio do mundo foi rompido. Num mundo onde palavras não dizem mais nada, o som metálico pode ter significado e todos os que passavam pela rua olharam em direção ao som, esperando entender a mensagem dentro do ruído. O homem dos sapatos de camurça olhou pra trás e viu a barba ruiva, a cabeça baixa, as roupas perfuradas cheias de poças assim como a calçada, porém quando aquele olhar encontrou os olhos castanhos de Dô, o pescoço voltou-se para frente e os sapatos seguiram seu caminho, ninguém viu que próximo ao recipiente metálico, havia apenas uma nova poça d’água se formando no chão.
 Mesmo quando é tarde demais para uma vida poucos irão entender o significado do metal rasgando a calçada, o ultimo apelo.
S. Olivx
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