22 agosto 2013

O jornalismo e eu

A idealização 

Sou uma eterna interrogação, pois tenho dúvidas e curiosidades, sou uma insaciável sede do conhecimento da vida (de todas as formas de vida). Se pudesse ter um desejo concedido optaria pela escolha de sobreviver desvendando os pequenos mistérios alheios de gente que está longe da nossa realidade, mas que tem uma história humanamente reveladora para contar. Um relato que faça o leitor pensar sobre aquelas linhas - entender pelas entrelinhas - que faça o espectador refletir a vida que vê diante de si.

No jornalismo consegui enxergar uma forma bela de traduzir as realidades, daquelas tão bem intrincadas que o receptor duvida que sejam reais. Encontrei uma forma de fazer o mundo entender outros mundos. E é isso o que sou, exatamente o que acredito que o jornalismo consiga fazer: transformar cada pessoa e unir cada mundo através da troca de informações e, mais, de histórias. Das pequenas histórias e tragédias que mudam pessoas à grandes reportagens formadoras da consciência política e social de cada um.

Acredito que, no jornalismo parte das minhas dúvidas como ser humano será saciada e que outra, jovial e persistente, cadeia de interrogações inevitavelmente irá nascer. E isso será bom. Afinal, a origem das histórias mais relevantes e reveladoras é a dúvida e a resposta vem pela persistência.
O jornalismo é a estrada por onde quero trilhar o mundo e ver através da realidade as pessoas alcançarem um estado de consciência sobre o tempo em que vivemos. E esta é a minha estrada tão pouco percorrida, por enquanto.

S. Oliv

09 agosto 2013

Uma guerra entre conceitos e atitudes


Foto: Kid at window | Scott Wallick 

Por enquanto, os pais ainda insistem em criar seus filhos com os valores que formam o caráter de um bom ser humano*. Ainda ensinam a bondade, a solidariedade e a não-violência.
Contudo, muitas vezes os ensinamentos vêm apenas em palavras e os atos que servem de exemplo são o contrário do que, por tradição, ensinam.
Como se meros conceitos proferidos em algum momento valessem mais do que as atitudes que têm o tempo todo.
Os atos cotidianos que não têm intenção de ensinar qualquer coisa são os que acabam formando aquela pessoa. É, também, daquilo que o caráter será feito.
Existem pais que não tem a pretensão de ensinar coisa alguma, ou, ainda os que ensinam de outras formas.
E ainda, do outro lado estão aquele que, sem as figuras paternas, aprende a vida direto da vida, a realidade direto da realidade. Que primeiramente aprende atos e não conceitos.
E desde cedo já vê que aqui não é o top 3 na lista de mundos para se viver.
Não que seja apenas atrocidade e hipocrisia, mas você sabe...

Então, fomos crianças criadas em mundo de adultos que, em sociedade, dissimulam o tempo todo.
E essa fogueira-dúvida, irá crepitar a noite inteira: vale a pena ensinar o caráter? e é hipocrisia ensinar?

Talvez depois de saber distinguir o que é bom ou ruim, dentro do contexto em que está, o indivíduo perceba que, neste mundo, esses conceitos se diluem quando o verbo é sobreviver.
E aí, irá pender para o lado que o mantenha vivo.
Talvez, se os adultos não ensinassem como ser bom fossemos ainda piores quando adultos.
E talvez, se seus exemplos fossem baseados em suas palavras não seríamos tão assim.

Porém, o mundo que vejo não verá o seu caráter.
O mundo vê a esperteza, não vê a intenção.
Vê o fim, não os meios.
E é somente isso, apenas vê.
Então, não esperemos por reconhecimento de qualquer coisa.
Apesar de tudo creio que vale a pena deixar nas nossas sementes a clara percepção dos conceitos.
Que preserva a esperança do que podemos ser quando deixarmos de lado a casca que envolve as atitudes que temos e muitas vezes não são nossas.
Mas tudo são apenas suposições, boas para o universo de um livro.
E nós somos apenas poeira no vento tentando se manter no ar...por mais tempo.
Deixo a torneira de ideias jogadas aberta, para que quando a sua opinião estiver formada, você tenha a escolha de fechá-la ou deixar correr por aí.

*Mas afinal, o que é um bom ser humano?

S. Oliv

29 julho 2013

A vitrine

O céu, que acompanhava os meus passos durante a minha jornada diária em busca de esperança para continuar insistindo, foi a única testemunha.
Andando apressada, como é de lei, parei subitamente surpreendida pela vitrine de uma loja de tecidos, que parecia estar ali desde sempre, embora eu nunca tenha notado. Como se assim que o ser humano ficou deslumbrou pela manipulação do fogo, a sua próxima meta fosse abrir uma loja de pedaços bem no que, milênios depois, seria o centro de uma grande cidade.
O que vi naquela vitrine mal iluminada, agarrou-me a mão e deixou ali o pó da nostalgia, figurativamente mas real. E fiquei paralisada diante daquele vidro.
Anos me foram sugados sem que eu sentisse. Acima de todos nós, o céu refletia o cinza dos prédios que me cercavam, feito prisioneira encurralada que me sentia há tempos. 
Não sei quanto tempo fiquei ali, rendida por aquele vidro ancestral. As pessoas que passavam atrás de mim, vez ou outra debruçavam um olhar em minha direção, saindo da hipnótica condição de andarilho-sem-ver. Mas o que elas viam exposto naquela vitrine não as atraía. Então, a caminhada das visões vendadas continuou, enquanto permaneci estática, inebriada por aquela visão angustiante através do vidro.
Uma senhora, que aparentava a idade do mundo, e a sapiência e leveza que devem ter nascido com tantos anos, saiu do casebre que tinha olhos de vidro virados para a rua. 
E dela, os olhos curiosos, muito vivos, pousaram em mim. 
Deve ter esperado qualquer reação minha, mas não houve. 
Apesar de perceber a realidade ao meu redor com uma clareza como nunca antes, eu estava totalmente alheia aos estímulos desse mundo.
Aquele rosto sem vida era a única coisa que existia e arrepiava o corpo que me prende os pés no chão dessa realidade. 
Aquela expressão de quem sonhara tantos sonhos pra depois, mas que agora apodreceram em si deixando pó e cinzas.
A nostalgia me acusava.
Aqueles olhos me encarando com remorso e medo perguntavam se eram os mesmos olhos da garotinha vivaz que outrora fui?
Apenas essa boneca quebrada morta-viva na vitrine que apenas o céu percebeu.
Tão fria quanto o vidro mal iluminado que refletiu quem sou.

10 de junho de 2013
S.

23 julho 2013

Sobre a contradição da escrita


Escrever a fantasia é dar vida,

Escrever a realidade é dar sentido.

Escrever a fantasia é dom,

Escrever a realidade é percepção.

Escrever a fantasia é carinho,

Escrever a realidade é capricho.

A mão que corre no papel ou no artefato do século XX manda nuvens para o céu.

E o céu encena nossas convicções para si, eternamente.

S.

Monólogo selado à vácuo


"Em terra tropical sempre é mais fácil desistir em dia de chuva

Porque a chuva inunda onde encontra espaço e traz as coisas escondidas à superfície, a chuva alaga o fundo do poço

Ah, como é frustrante viver nos dias chuvosos

É uma espera

É esperar que não chova em si"

Declamou, inconsolável, a criatura que tudo sabia sobre nada.

S.

16 julho 2013

A aguçada sorte de julho

Chegou em casa e já era outro dia desde que saiu pela última vez.
O vazio estava a lhe esperar, convidativo.
A solidão é ótima, libertadora.
O solo de Lease of Life tocando nos ouvidos.
Tirou os sapatos, havia pisado na sorte naquela noite (e como fedia!)
Deixou o vento bagunçar os cabelos.
Olhou para o céu, alguns pingos eram visíveis em meio a luz artificial e a poluição humana.
Levantou-se e finalmente abriu a porta.
Entrou e largou a sacola em cima da mesa.
Tirou a jaqueta cuidadosamente, para evitar que o fone de ouvido fosse ao chão justo na melhor parte da música.
Respirou fundo aquele silêncio.
Apagou a luz, ouviu a melodia envolvente daquele momento da música
Ainda no escuro lembrou que agora já era sexta-feira, sexta-feira 13.
"Oh, meu deus! Os fantasmas e monstros de sombras!", pensou apalpando a parede em busca do interruptor, que interromperia a escuridão.
Levou três eternos segundos para encontrar e trazer de volta a luz, e com ela a realidade.
A cozinha vazia, sorria.
Desistiu da sua próxima ação.
Apagou as luzes e voltou pela porta que adentrara.
Viu o sol nascer sentada no chão, batendo nas portas do céu.


S.
Do Caderno Vermelho

A Esperança, ou O pássaro que cantou porque o dia nasceu outra vez

O dia terminou porque ele sabe.
Eu não sei terminar.
O que é meu eu não termino.
É como se tivesse tamanha importância que é melhor deixar pra lá, "vai que dá errado" é de pensar.
Mas não, hoje não lhe venha com essa de que a vida tende a melhorar, porque não, o dia não vai amanhecer melhor.
O dia vai nascer o mesmo.
Tudo igual abaixo do sol.
E por saber onde começa e aonde termina, o dia vai acabar.
Porque ele sabe mesmo como chegar ao fim.

S.

14 julho 2013

Os nomes da Redundância

Saí de casa e saí da maneira que eu mais detesto: com olhos embaçados que me tapavam a visão da minha própria realidade e jogando palavras-farpas nos corações alheios. Como se incompreensão fosse curada com marcas de mágoas, ou como se uma palavra de vingança fosse justiça…

O meu problema deve ser a falta de paciência, já não tenho tanta vontade de esperar pelas coisas que virão. Sei que algumas ações só terão a reação esperada depois de passado muito tempo, mas eu não sei esperar. E aí, é como se me sentasse diante de uma mesa vazia e estivesse tamborilando os dedos no tampo de madeira rústica durante séculos, durante eternidades. E nesse tempo nada aconteceu. Nada caiu na minha mesa e eu nem sequer pude me levantar dali. Na verdade, estou nessa mesa imaginária agora, apenas esperando pelo resultado das coisas que já fiz.

O problema é esse, não saber esperar.

O problema atende pelo nome de Impaciência, mas também vai olhar em sua direção se você gritar por Ansiedade. 

E que toda a redundância nos leve ao entendimento ou nos mate por repetição.

sexta-feira, 13 de julho de 2013
S.

Ultimato


Eu escrevo.
Foi ao escrever que senti o coração pulsar e percebi o sangue correr.
Foi ao escrever que enxerguei mais do mundo do que o mundo viu de mim.
Foi ao escrever que os meus cinco sentidos me deram vida.
E escrevo há mais tempo do que posso me lembrar.
São folhas e folhas acumuladas grafadas com letras taquicardíacas.
Cada aprendizado e percepção sobre o mundo.
São as vozes do que eu não quis dizer, mas escrevi pra mim.
Percebi, com coragem dessa vez, que não adianta ter as vozes.
É preciso bradar e deixar que o mundo ecoe.
E por isso vou levar meus sentimentos para a selva de pedra e espalhar por lá;
mesmo que ninguém os recolha do chão ou do ar, eles estarão livres para percorrer o mundo.
São ideias que oferecem abraços.
Vou espalhar por aqui também, na voz e nas linhas mentais de qualquer um que ouse ler.
Nós temos prazo, apodrecemos.
Nossas vozes têm de ser espalhadas enquanto há vida.
E se não ficamos que ao menos deixemos algo ficar por nós...
Eu resolvi deixar que todas as minhas vozes falem.

S.

08 julho 2013

Também somos o chumbo das balas, por Eliane Brum



coluna de Eliane Brum da semana passada é uma imprescindível para a nossa capacidade de sentir e raciocinar os últimos fatos que, mesmo longe, fazem parte de cada um de nós. A cada semana as palavras dessa mulher se superam ao descrever nossas singelas histórias e sutis mazelas, que tanto nos afetam e muitas vezes não tem o espaço que merecem na mídia atual.

Alguns inábeis contadores de realidades fecham as janelas, muitas vezes não por vontade própria, mas do veículo para que trabalham (que muitas vezes se interessa apenas pelos números por trás da história que também é um  número),  ao invés de abri-as para que seus leitores possam vislumbrar o mundo como ele é.
Sinto, tanto quanto acredito, que o jornalismo precisa de mais vozes como essa. Precisamos ser mais humanos com os humanos que nos cercam, mais respeito por suas histórias, por suas vidas, perdida ou não. E entender que histórias não se resumem a meras descrições. São sentimentos que foram perdidos ou resgatados, são monstruosidades que não devem ser vistas como algo diário, normal e habitual. A maldada humana nunca deve ser escrita, descrita ou aceita como um aspecto aceitável da sociedade. A vida humana não deve perder o seu valor, não deve se tornar banal.

Então, desta vez, senti que era necessário compartilhar em meu próprio espaço tais palavras que tanto me fizeram refletir sobre o meu país, sobre o povo que eu também sou e sobre a carreira que escolhi viver. Carreira que escolhi por otimismo, por registro da vida, por sede de conhecimento, por auto-conhecimento. Como uma tentativa de mudança, de clareza, respeito e humanidade.
Por fim, minha inspiração de palavras...
S.   Oliv

Também somos o chumbo das balas, por Eliane BrumO Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré
Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.
O que você faz?

Nada.  
Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.
Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.

Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.

Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse?  
Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre.   
E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros?

É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.  
É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.

No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.   
Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto.  
Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?

Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?

O que torna isso possível?

É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.  
São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam?

Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos.

A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.
Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.
A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.
A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?

A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.  
“Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.

Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar a curar sua abissal e histórica cisão.
ELIANE BRUM

26 junho 2013

Aos contadores de realidades



Jornalistas e fotojornalistas orgulhem-se!
Não sei se eles te dizem isso na faculdade, ainda estou cursando e nem sei se isso é comprovado, é apenas a minha teoria o que irei lhe dizer. 
Vocês estão erguendo os pilares onde a história da humanidade ficará. É dos fatos que se faz a história e do passado que se entende o presente.
Para você, caro leitor, pode ser um ponto de vista ingênuo.
Para esta escritora, não. E ela acredita que exista algum valor histórico no cotidiano.


Primeiramente, por favor, sente-se.
Lembre-se dos seus pensamentos universitários, da utopia dos tempos de mocidade, antes que essa loucura tivesse início.
Houve um porquê, redescubra.
Os fragmentos do motivo estão soltos por aí, levante-se e traga-os para perto de si.
Junte tudo, desembaralhe, remonte, peça por peça.
Esqueça a pressa e o prazo, encaixe tudo.
Depois tome a devida distância e observe.
Qual era a sua missão, e qual SE TORNOU a sua missão.
Uma missão que é sua



Estudantes e aspirantes à jornalistas acredito que se entrarmos nessa engrenagem enquanto ela gira, nunca poderemos mudá-la, sem que antes sejamos descartados por ela. Iremos girar junto com todo o sistema desumano, que destrói sonhos e esperanças diariamente com suas notícias sobre morte, caos e corrupção.
O dia a dia é mais que isso, é mais do que noticias pré-prontas.
Está do outro lado de nossas janelas, nas ruas.
As boas histórias, das vidas pelas quais vale a pena viver, estão lá fora.


Parece-me ser culpa dessa falta de ir à notícia que os nomes já não estão mais lá.
São pessoas 'Da Redação', não são nomes, nem corpo. Apenas uma máquina de redigir. Não me parece um futuro satisfatório, nem que a missão esteja completa ao ser assassinada diariamente.
Então, me pergunto: quando recomeçaremos a lutar pela mudança que queremos que o mundo também seja? 
Depois? 
Quando o gás da juventude estiver perdido?
Precisamos lutar, e a luta é agora.
E ainda há tempo para a mudança, para o melhor, enquanto há vida.


Pode ser ingenuidade, e faço-me humilde para admiti-la, pois ainda sou nova nessa coisa de escrever sobre a realidade, mas as minhas percepções são atiçadas e sinceras. E em meio a tanta repetição, tanto mais do mesmo apesar da vida ser o mais, perde-se o próprio nome em uma história que não se viveu.
E ao contrário do que se vê o significado de formador de opinião é formar a opinião através da informação, da releitura do real. Não é plantar a sua opinião ou a opinião do veículo. Todos têm a capacidade de raciocinar, e mesmo quando chegamos a mesma opinião ela deve ser formada por vias diferentes do pensamento, mesmo que semelhantes, não somos iguais (ainda não somos tão robotizados assim). 

Entre apenas as nossas quatro mini-paredes é que a vida morre, onde o jornalismo morre aos poucos cada vez que alguém deixa de ir às ruas. Definitivamente, não é um começo de uma mudança social.
A vida ainda sorri lá fora, embora morra em acidentes de percurso  e torne-se mais um número sem antes, nem depois.
A vida ainda se doa lá fora, apesar de tirar o que a luta pôde comprar.
E a vida, caro jornalista, futuro colega de profissão, continua reverberando o seu som que fará a história lá fora. Nas ruas!


S. Oliv

20 junho 2013

Sobre tudo o que te fará lutar



Depois de dias de manifestações iniciadas pelo Movimento Passe Livre a tarifa baixou. Apesar disso, a manifestação que já estava marcada para hoje dia 20 de junho, às 17h saindo da Praça do Ciclista em SP reunirá multidões nas ruas novamente. Como um ato de comemoração pela conquista do povo, que foi às ruas inicialmente pelo preço abusivo da passagem, contra a criminalização do movimento.

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Durante as manifestações que foram marcadas por atos singelos de humanidade, patriotismo fora de época e também depredações, fogo e uma guerra entre policiais e manifestantes, essa criatura fantástica do povo brasileiro ganhou outros tentáculos. 

A bandeira brasileira saiu às ruas abraçando o seu povo para reivindicar a mudança desse país: na melhoria da sistema educacional, contra a PEC37, contra o Estatuto do Nascituro, contra o dinheiro gasto na Copa do Mundo, contra o descaso na saúde pública, mas calma, vamos por partes, com calma e força. E antes de ir, decida pelo que vai lutar e já que não há causa perdida desde que haja um louco disposto a lutar por ela, qualquer causa serve. Será?

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O povo saiu de casa e conseguiu o que reivindicavam, isso demonstra o quanto somos fortes e o quando a união é maior do que as nossas diferenças e nossos preconceitos. Porém, esta não é a única forma de lutar contra as inúmeras injustiças desse país. A mobilização de tantas pessoas é incrível, é um poder sem limite. Contudo, as pessoas que se mobilizam tem que saber o motivo de estarem ali. Senão, tudo isso se assemelha a uma torcida de futebol ou a qualquer outra massa que age por impulso e isso poderá ser usado contra você, Brasil. Ou não.

Todos dizem tantas coisas boas sobre as pessoas terem ido às ruas, mas ninguém percebe o perigo que é influenciar tanto as pessoas.

Nem todos puderam comparecer, mas muitos trabalhadores apoiaram a causa (que no caso era o valor da tarifa do transporte público) e não participam por terem filhos, empregos e etc. E é bom ter alguém lutando também por essas pessoas. É bom quando enxergamos o outro e nadamos além do limite dos nossos próprios umbigos pelo bem comum.

Só que a partir de agora, se manifestação virar modinha, o saque e a depredação serão tendência entre aqueles que não fazem e nem têm ideia do motivo de tal aglomeração e por isso, se aproveitam dele em prol do bem próprio. É preciso organização senão perdemos o rumo, e a energia momentânea que nos une.

Portanto, todos nós deveríamos parar e pensar: pelo quê vamos lutar agora?

Não seja mais um do que age sem saber o motivo, indo tirar foto para colocar em redes sociais.Se não tem causa, não lute e não atrapalhe. Ao mesmo tempo, precisamos perceber que a mudança está muito além de ir às ruas.

Por outro lado, vejo essa manifestação também exibe o ato de hipocrisia por parte de alguns. Afinal vão para a rua mudar o mundo, mas não muda o que está ao seu redor todo dia?

Não mudamos a nós mesmos, e queremos mudar SP? Na massa é mais fácil achar que está lutando contra tudo mesmo.Mas de manhã, não diz nem bom dia pro porteiro, não oferece o lugar aos que já trabalharam por esse país de merda e ainda joga lixo no chão? 

Precisamos rever os nossos próprios pensamentos e, sem influência do que é dito (inclusive aqui), pensar por um momento  sobre o que tudo isso realmente significará daqui pra frente. Sobre o que cada vai lutar, e pelo quê iremos às ruas.

A bandeira que te serve de capa não te fará voar sem ideais.
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19 junho 2013

Antes do naufrágio




“Depois que o barco afunda sempre existe alguém que sabia como salvá-lo”. Parecia esse o nosso futuro, que o navio afundaria e depois alguém afirmaria em voz forte que sabia como evitar. Todos os dias vimos o barco de vinte e sete estrelas afundando, pouco a pouco, em silêncio. Para alguns já não havia salvação, porém, os tempos mudaram e aqueles mais otimistas ou ingênuas puderam se encontrar e suas ideias ainda podem evitar o nosso naufrágio.


Todas as soluções estão sendo compartilhadas pela web e amanhã, outra vez, estarão nas ruas. De todos os tipos, todas as ideologias. Ideias que estão sendo discutidas pelo mesmo povo que antes foi tachado de manipulado e alienado. A voz do povo ecoa nas ruas e lutam por todos aqueles que não lutaram ainda.


O milagre da internet é esse, se um souber uma forma de melhorar ou resolver esse país, ou qualquer outro problema é só divulgar, e se a maioria concordar e ver utilidade naquilo, logo será espalhada e assim uma ideia não morrerá fácil.

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Foto: Tatiana Santiago/G1

Assim que o sol se ergueu no dia 19 de junho, em São Paulo, foi possível ler o grito do povo na cara do poder. Escrever e rabiscar protestos e ideias -não iniciais do nome, ou palavras sem razão de ser apenas aparecer em meio a luta pacífica- nos muros das subprefeituras, prefeitura ou em prédios da cidade não seja vandalismo.  É apenas para que a mensagem bradada durante a noite, não se perca durante o dia. Para que alguém veja e pense sobre aquilo, é a voz do povo gritando silenciosamente na luz da manhã. 


Façam os seus cartazes, e juntos com nossa força e nossa voz vamos mudar o futuro dessa geração! A geração-internet  saindo da virtualidade para fazer a revolução por uma realidade em que valha a pena viver!

S. Oliv
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18 junho 2013

A parte que nos cabe





Falta educação de qualidade.

Falta saúde.

E para mudar, falta lucidez. 

Falta mudar também quem nós somos todos os dias.

Acima disso falta mudar a forma como tratamos uns aos outros.


Imagine-se com poder, um poder tão grande que pode comandar a vida das pessoas que não necessariamente vivem no mesmo território que você. Agora que tem poder, o que te fará tratar melhor aquele desconhecido que você empurrou no metrô? O que te motivará a ajudar aquela senhora que carregava uma sacola pesada, ou a simplesmente, não julgar a aparência de alguém?
Definitivamente, o poder não nos torna melhor.
Não nos torna mais solidários, nem mais atentos a nossa realidade.


O brasileiro precisa aprender a se respeitar. E por respeito, também digo o respeito próprio. Somos um povo tão capaz, tão criativo e bondoso, mas não percebemos a capacidade que temos diante do resto do mundo. Não só como nação, não só em qualquer esporte. Somos mais do que mentalmente achamos que valemos, e como podemos fazer a diferença aqui!
Só não podemos esquecer que antes de mudar o mundo, devemos olhar para nós mesmos e ver se está tudo ok.
As pessoas estão bradando o Hino Nacional e isso é lindo, emocionante, arrepia cada célula, mas temos que honrar o povo brasileiro antes de querer honrar ESTE PAÍS!
Honrar as nossas diferenças, nossas semelhanças.
E como estamos distantes de acabar com os preconceitos, mas estamos nas ruas e estamos tentando. Nas ruas são todos iguais independente da classe social, da etnia, da idade. Nas ruas, unidos, somos um. Entendo, já é um começo, mas não deve parar por aí. 
Ainda tem mais, não tem?


Este é País dos nossos pais, nossos avós que também travaram suas lutas, mas vejam o que eles nos deixaram? O que nós deixaremos, ou para os imediatas, como viveremos o resto de nossas vidas neste País? Reafirmo que devemos cobrar dos candidatos um debate sem ofensas ou propagandas pessoais durante o período eleitoral, sem respostas fugidias. Afinal se todos sabemos que são meras mentiras o que dizem, por que não cobrar deles a verdade? 
Conversando com uma amiga minha tive a decepção de ler tais palavras: "Tomara que o governo não aceite diminuir agora porque eu quero participar". Imagino que mais pessoas estejam pensando assim depois que perceber o tamanho da energia e da positividade do povo, mas essa luta não é moda, e se conseguimos baixar a tarifa da passagem é uma vitória, certo? 
A vitória dessa causa é um indício de que juntos podemos mudar as nossas condições de vida, e de que não devemos parar.



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Com calma, porém, com força devemos avançar mais e mais. Contudo, esse País tem problema demais e devemos consertar peça por peça. Reerguer estrela por estrela da nossa bandeira que agora saí as ruas fora de temporada. A bandeira verde-amarela que agora é símbolo da luta nacional, não do futebol. Até porque esse patriotismo de Copa, não importa! Essa bandeira que envolve os brasileiros é orgulho que nos faltava e quem não nos separa: o orgulho brasileiro.
Vamos lutar por outras coisas. O que passou, mudou! E ainda podemos fazer parte disso tudo juntos, mas por outros motivos ainda mais relevantes para o bem-viver dos brasileiros. Não somos povo contra polícia, somos todos povo e estamos contra à opressão.
Na massa é fácil defender o País, mas esquecemos que sozinhos, cada um, também fazemos a diferença. Então vamos mudar as nossas fachadas e sorrir para a mudança. Começando também por nós para que boas energias emanem de nós e corram soltas pelas ruas.
Que tudo isso já não é apenas por 0,20 centavos está claro, só não percebe quem não quer. Só não podemos lutar sem saber porque lutamos, já que motivos não nos faltam, mas os tenha em mente quando for às ruas. Existe perigo em tanta esperança sem direção certa.
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S. Oliv

17 junho 2013

Suas crianças derrubando reis





No final da noite de hoje (17), os filhos da revolução finalmente acordaram o Gigante Adormecido. A faísca da revolução inflama no peito de cada brasileiro, mesmo nos que se dizem contra tudo isso.Eles sentem e sabem que a mudança está próxima! E que noite memorável estamos vivendo.

Resta manter a esperança - aquela pura, quase infantil - de que iremos aprender a honrar a verdadeira democracia nas próximas eleições. E caso nos vejamos a mercê de outro abuso da nossa insistente tentativa de fazer esse voto valer, que mergulhemos nas ruas novamente. 

O bem estar do povo é um dever do Estado e da Nação, não acabe apenas a um lado. 
Contudo, que essa chama que arde no peito da juventude e dos mais velhos, não se apague tão fácil. Que essa luta democrática seja fincada na nossa cultura.
Ao fim dessa noite, enquanto as manifestações ainda ocorrem em SP, DF e RJ, me pergunto: será que hoje nos tornamos mais irmãos? Atingimos a Fraternidade ao lutar todos juntos? O amanhã tratá a minha resposta.

À frente deste País precisamos de humanos, e não de máquinas loucas por poder, precisamos de pessoas que se importem com a saúde e a educação de seu povo, mas nós também devemos nos importar! Dessa vez, duvido que a memória seja curta, nós lembraremos dos rostos, das promessas. E caso necessário as ruas serão tomadas novamente.
De nossos próximos candidatos a representante devemos exigir debates e propostas, com argumentos e realidades expostas, não apenas uma enxurrada de ofensas ou propagandas pessoais.A política não é essa propaganda cheia de imagens e frases emocionantes, a política não deve comover. Deve raciocinar a realidade, sem perder o olhar humano.

Não é por 0,20 centavos e só não sabe disso quem não quer!
À aqueles que estão nas ruas sentindo isso na pele, ou aos que estão lendo e vivendo isso através das lentes de diferentes olhares, obrigada! 
Estamos mudando a história deste País, para quê fim? Só o futuro dirá! Felizmente, zumbis inertes que fomos estão exalando vida e luta e o poder ao povo retorna! 

Estamos longe do fim, longe da igualdade e liberdade plena, porém, que todo esse movimento memorável não seja em vão. Que seja apenas no vento o cheiro da nova estação. E que todos vejam que a mão que alimentava o conformismo brasileiro está prestes a ser cortada fora pelo poder do povo!

O poder está na voz, então brada Brasil!

A vida breve que te leve




Releitura do conto Feliz Aniversário da querida Clarice Lispector, sob a perspectiva de outro personagem….Aprecie!
A vida breve que te leve

Pela manhã, enquanto o Pobre Adorno dos Anos teve um número inanimado atado a si e ia sendo afundado naquela massa seca, reparou que as mãos que o seguravam tinham um rosto repleto de rugas. Aquela face no final da mão, em último plano e muito alta para ser alcançada, havia enraizado a expressão de cansaço, típica daqueles que da vida não via diversão ou paz. Eram obrigação e responsabilidade em troca da desconsideração, somente tentativa.
Assim que estava fixo em seu palco de mini pirotecnias reparou no olhar de grandeza que o fitava. Ele não sabia, mas os olhos da Velha Inerte o encaravam como um adereço hasteado porcamente ao símbolo ocidental de passagem dos anos. “Tanto desleixo, ainda bem que será queimado”, ela pensou em algum dos seus momentos de gargalhadas mentais em que parecia ter alguma lucidez e consciência da sua duradoura realidade. O Pobre Adorno percebendo que os olhos vivos daquela senhora queriam incendiá-lo resolveu simplesmente fechar os poros oculares até o momento em que faria o seu breve espetáculo.
Foi despertado pelo irritante som de uma mosca zombeteira que o rondava. Olhou ao redor e avistou parte do seu público chegando, trazendo consigo bocas e expressões miúdas. A Velha Inerte continuou alheia aos protocolos sociais dos recém-chegados, que o Pobre Adorno apesar de seu pouco conhecimento em relações humanas acreditava que não deveriam fazer parte das relações familiares, mas era o que formava aquela. Olhando-a de baixo, como fazia, percebeu que os músculos do rosto dela já não a interpretavam, ela não representava nem perigo, nem atitude. Apenas silêncio em meio ao barulho que se formou daqueles que fingem festa. “E como fingem mal”, pensou.
Depois de muita gritaria, dos que ele chamava de pequenos humanos, finalmente havia chegado o seu momento. As luzes se apagaram, e agora ele seria o centro das atenções. A mulher cujas mãos levavam até finas rugas acendeu o topo da cabeça do Pobre Adorno e a pirotecnia de vida breve teve início. Entoaram uma música para ele, os rostos humanos eram iluminados apenas por sua diminuta chama. A canção tinha partes de um idioma que o Pobre Adorno não entendeu, mas ele estava feliz com a atenção dedicada a ele, embora também estivesse morrendo. Uma vela só nasce para viver até o primeiro momento de pirotecnia, depois é apenas fogo de palha aceso em pedaços que já queimaram antes.
Um dos pequenos humanos, o mais sujo entre eles, veio em sua direção e o seu espetáculo acabou ali, na saliva com cheiro de gordura de croquete que o garoto soprou. Sabia apenas que estava queimando assim como os anos da velha que o causou e não o apagou.

As luzes foram acesas e pareceram marcar o seu fim. Foi ficando esquecido da vida que levou até ali e se apagando aos poucos, quando ouviu o zumbido irritante e em meio aos vultos que ainda insistiam em sustentar-lhe a vida, ele enxergou. A imagem que levará para a ‘próxima enceração’ é o olhar assassino da Velha não-mais-inerte com uma faca na mão enrugada vindo em sua direção.
A mosca apenas zumbia na orelha da velha e a morte era mesmo o mistério de qualquer um que possa raciocinar sobre ela.


S.

28 maio 2013

Interlúdio: eis o valor da vida humana





Na subterrânea jornada diária que me imponho diariamente para concretizar tantos sonhos, me vi ao lado de uma pequena grávida no metrô. Ela estava em pé, em frente a porta, naquele ritmo paulista de quem prepara-se para sair do vagão.
Uma mulher tão pequena, carregando um ser dentro de si.
As duas vidas se foram e eu fiquei ali, pensando, eu estive ali antes.Figurativamente, todos estivemos. E tão sem consciência de que estive, assim como, não tinha consciência de que estaria aqui. A inconsciência dos que estão  é tão inocente quanto a nossa  incerteza sobre o que haverá depois que não estivermos mais aqui - se houver algo.
Uma mulher tão pequena, carregando um sonho inconsciente dentro de si, enquanto em uma cultura diferente - extremamente controladora - um sonho é desperdiçado. E se para você, esse papo de sonhos não tem valor, pergunte a si mesmo o que te mantém respirando nesse mundo de ar tão poluído.  
Na China, um recém-nascido foi encontrado no encanamento do vaso sanitário de um prédio residencial. Motivos? Culturais ou pessoais, que não cabem a mim julgar. Penso que não cabe a nenhum ser humano tal julgamento. A humanidade não vêm provando ser tão digna de julgamentos alheios.
Contudo, esta diminuta vida, que ainda estava ligada à placenta quando foi resgatada por bombeiros, vivenciou, ainda que totalmente alheio a tudo isto, a característica que nos torna humanos: a união, a solidariedade. O recém-nascido, que está em estado estável, teve como prólogo de sua vida a própria salvação. 

Em uma entrevista Edgar Morin afirma quequando se faz presente, o perigo dá uma possibilidade de consciência de ação. E eu tento adequar esse pensamento a uma maneira otimista de enxergar as desumanidades humanas.
Diante da perca iminente de uma vida pequena e tão alheia a todo esse caos regrado, a união das ações humanas pode (e deve) alterar o rumo dos acontecimentos. Se lhe aprouver, assista aqui a tentativa de salvar uma vida descartada, por alguém que não compreende tanta grandeza singela. E são nessa tentativas que nos mantemos humanos.
O simples descarte de uma vida que mal chegou a este mundo demonstra o quão insensíveis nos tornamos. O quão estamos vivendo sob tantas regras, tantas leis, que perdemos a nossa capacidade de raciocinar entre o bem e o mal. 
Minha memória ainda resguarda, mesmo que em turvas lembranças, um caso que deve ter ocorrido por volta de 2009-2010, nos EUA. Um criança, de pouco menos de um ano de idade, foi abandonada pelo pai no meio da rua, em plena madrugada. No vídeo era possível ouvir o pai sussurar “bye baby, be careful”. 
Por conta da minha memória estranha tentei encontrar alguma manchete ou vídeo sobre essa noticia que ouvi tantos anos atrás, mas não encontrei nada. O que nessa sociedade googlelizada pode significar que nunca ocorreu, mas, afinal, somos raciocínio ou internet? E o que seria do nosso raciocínio sem internet?
Em momentos como esse, enfrento dois monstros. O pessimismo que leva a perca da capacidade de acreditar, contra o Otimismo de que poderemos nos salvar até que aprendamos um dia a viver em paz e conscientes.
Ao fim de tudo isto, ao fim dessa existência fugaz e pulsante, me sento em qualquer canto apenas para observar as pessoas e pensar: qual o valor da vida humana? Qual o calor de uma vida humana? Será que durante a vida não estamos todos esquecendo da vida?
S.