29 julho 2013

A vitrine

O céu, que acompanhava os meus passos durante a minha jornada diária em busca de esperança para continuar insistindo, foi a única testemunha.
Andando apressada, como é de lei, parei subitamente surpreendida pela vitrine de uma loja de tecidos, que parecia estar ali desde sempre, embora eu nunca tenha notado. Como se assim que o ser humano ficou deslumbrou pela manipulação do fogo, a sua próxima meta fosse abrir uma loja de pedaços bem no que, milênios depois, seria o centro de uma grande cidade.
O que vi naquela vitrine mal iluminada, agarrou-me a mão e deixou ali o pó da nostalgia, figurativamente mas real. E fiquei paralisada diante daquele vidro.
Anos me foram sugados sem que eu sentisse. Acima de todos nós, o céu refletia o cinza dos prédios que me cercavam, feito prisioneira encurralada que me sentia há tempos. 
Não sei quanto tempo fiquei ali, rendida por aquele vidro ancestral. As pessoas que passavam atrás de mim, vez ou outra debruçavam um olhar em minha direção, saindo da hipnótica condição de andarilho-sem-ver. Mas o que elas viam exposto naquela vitrine não as atraía. Então, a caminhada das visões vendadas continuou, enquanto permaneci estática, inebriada por aquela visão angustiante através do vidro.
Uma senhora, que aparentava a idade do mundo, e a sapiência e leveza que devem ter nascido com tantos anos, saiu do casebre que tinha olhos de vidro virados para a rua. 
E dela, os olhos curiosos, muito vivos, pousaram em mim. 
Deve ter esperado qualquer reação minha, mas não houve. 
Apesar de perceber a realidade ao meu redor com uma clareza como nunca antes, eu estava totalmente alheia aos estímulos desse mundo.
Aquele rosto sem vida era a única coisa que existia e arrepiava o corpo que me prende os pés no chão dessa realidade. 
Aquela expressão de quem sonhara tantos sonhos pra depois, mas que agora apodreceram em si deixando pó e cinzas.
A nostalgia me acusava.
Aqueles olhos me encarando com remorso e medo perguntavam se eram os mesmos olhos da garotinha vivaz que outrora fui?
Apenas essa boneca quebrada morta-viva na vitrine que apenas o céu percebeu.
Tão fria quanto o vidro mal iluminado que refletiu quem sou.

10 de junho de 2013
S.

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