17 junho 2013

A vida breve que te leve




Releitura do conto Feliz Aniversário da querida Clarice Lispector, sob a perspectiva de outro personagem….Aprecie!
A vida breve que te leve

Pela manhã, enquanto o Pobre Adorno dos Anos teve um número inanimado atado a si e ia sendo afundado naquela massa seca, reparou que as mãos que o seguravam tinham um rosto repleto de rugas. Aquela face no final da mão, em último plano e muito alta para ser alcançada, havia enraizado a expressão de cansaço, típica daqueles que da vida não via diversão ou paz. Eram obrigação e responsabilidade em troca da desconsideração, somente tentativa.
Assim que estava fixo em seu palco de mini pirotecnias reparou no olhar de grandeza que o fitava. Ele não sabia, mas os olhos da Velha Inerte o encaravam como um adereço hasteado porcamente ao símbolo ocidental de passagem dos anos. “Tanto desleixo, ainda bem que será queimado”, ela pensou em algum dos seus momentos de gargalhadas mentais em que parecia ter alguma lucidez e consciência da sua duradoura realidade. O Pobre Adorno percebendo que os olhos vivos daquela senhora queriam incendiá-lo resolveu simplesmente fechar os poros oculares até o momento em que faria o seu breve espetáculo.
Foi despertado pelo irritante som de uma mosca zombeteira que o rondava. Olhou ao redor e avistou parte do seu público chegando, trazendo consigo bocas e expressões miúdas. A Velha Inerte continuou alheia aos protocolos sociais dos recém-chegados, que o Pobre Adorno apesar de seu pouco conhecimento em relações humanas acreditava que não deveriam fazer parte das relações familiares, mas era o que formava aquela. Olhando-a de baixo, como fazia, percebeu que os músculos do rosto dela já não a interpretavam, ela não representava nem perigo, nem atitude. Apenas silêncio em meio ao barulho que se formou daqueles que fingem festa. “E como fingem mal”, pensou.
Depois de muita gritaria, dos que ele chamava de pequenos humanos, finalmente havia chegado o seu momento. As luzes se apagaram, e agora ele seria o centro das atenções. A mulher cujas mãos levavam até finas rugas acendeu o topo da cabeça do Pobre Adorno e a pirotecnia de vida breve teve início. Entoaram uma música para ele, os rostos humanos eram iluminados apenas por sua diminuta chama. A canção tinha partes de um idioma que o Pobre Adorno não entendeu, mas ele estava feliz com a atenção dedicada a ele, embora também estivesse morrendo. Uma vela só nasce para viver até o primeiro momento de pirotecnia, depois é apenas fogo de palha aceso em pedaços que já queimaram antes.
Um dos pequenos humanos, o mais sujo entre eles, veio em sua direção e o seu espetáculo acabou ali, na saliva com cheiro de gordura de croquete que o garoto soprou. Sabia apenas que estava queimando assim como os anos da velha que o causou e não o apagou.

As luzes foram acesas e pareceram marcar o seu fim. Foi ficando esquecido da vida que levou até ali e se apagando aos poucos, quando ouviu o zumbido irritante e em meio aos vultos que ainda insistiam em sustentar-lhe a vida, ele enxergou. A imagem que levará para a ‘próxima enceração’ é o olhar assassino da Velha não-mais-inerte com uma faca na mão enrugada vindo em sua direção.
A mosca apenas zumbia na orelha da velha e a morte era mesmo o mistério de qualquer um que possa raciocinar sobre ela.


S.

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