04 janeiro 2013

No hero in him sky




A garoa fina silenciosamente tocava o chão, a cidade era silêncio mas as coisas aconteciam.
A lata de café enferrujada no chão espera por um contato humano, por moedas de ouro e pedaços de historias. O homem, de barba ruiva e roupas rasgadas, a seu lado espera por um pouco de vida. Algum dia ele simplesmente escorreu pela parede e caiu ali sentado, nunca gritou por deus, não pediu por ajuda ou refeição. Apenas observa o mundo através das janelas castanhas, sem tentar entender a vida ao seu redor, olha cada rosto, segue cada passo com o olhar, mas não pensa sobre isso. Apenas vê, e acha que está naquela calçada imunda há anos, embora não tenha certeza, nem relógio, nem sol ou calendário.
 Dô é o seu nome, ou parte dele. É o que a memória lhe diz diariamente, porém nomes não lhe tem nenhuma utilidade, e não trazem memórias com eles, faz anos que ninguém chama o seu nome. Ele é invisível há tanto tempo quanto não consegue se lembrar, simplesmente não assimila a realidade ao seu passado.
O céu é uma rotina cinza na cidade apagada, as pessoas se arrastam rapidamente parecem sempre ter de chegar a um lugar, mas passam por ali todos os dias e ele não entende a pressa, não entende esse ciclo que não os leva a lugar algum e que as trazem pelo mesmo caminho imundo toda manhã. As pessoas passam por ele e às vezes através dele, sem notar, e é nesse momento que ele sente cada existência que o atravessa. Cada essência…
Um homem passou por ele aquela manhã, um rosto desconhecido que calçava sapatos de camurça e arrastava uma mala de rodinhas pela calçada esburacada. A mala ocupou o mesmo espaço que a lata, que por sua vez virou-se de lado e rolou pela calçada espalhando as moedas, e os botões que estavam ali dentro. O som ecoou por toda a rua, e o silencio do mundo foi rompido. Num mundo onde palavras não dizem mais nada, o som metálico pode ter significado e todos os que passavam pela rua olharam em direção ao som, esperando entender a mensagem dentro do ruído. O homem dos sapatos de camurça olhou pra trás e viu a barba ruiva, a cabeça baixa, as roupas perfuradas cheias de poças assim como a calçada, porém quando aquele olhar encontrou os olhos castanhos de Dô, o pescoço voltou-se para frente e os sapatos seguiram seu caminho, ninguém viu que próximo ao recipiente metálico, havia apenas uma nova poça d’água se formando no chão.
 Mesmo quando é tarde demais para uma vida poucos irão entender o significado do metal rasgando a calçada, o ultimo apelo.
S. Olivx
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